6 de fev de 2015

OS VELHOS CARNAVAIS DE SÃO JOÃO BATISTA…

Por Batista Azevedo
Ouve-se dizer nas principais rodas de conversas que pras bandas daqui já não se faz mais carnaval como antigamente. É verdade. Foi-se um tempo em que o carnaval era a festa da espontânea alegria e da irreverência gostosa de se ver…  Era o momento das brincadeiras de fofão, das charangas, dos blocos de sujo, do talco cheiroso (Gessy e Tabu, só para lembrar alguns), do verdadeiro lança-perfume, dos foliões solitários que se punham a arrastar latas-velhas, pinicos e outras quinquilharias, quase sempre a entoarem uma “jardineira” descompassada. O velho alfaiate Gama fazia isto como ninguém.
Era mestre na arte de brincar carnaval de um jeito só seu. De qualquer jeito valia era estar na alegria. As marchinhas davam o tom, e como esta era um ritmo aparentemente fácil de compor, alguns inveterados “foliões¨ como Tarquínio de Buca, Mariano de Nhá-Deca, Procopinho e Edinho Serra compunham suas próprias marchas carnavalescas. E não era raro cair na boca do povo. Faziam o maior sucesso. E tome carnaval! A nossa São João Batista se enchia. Saía gente do arco da velha. A maioria mesmo vinha da capital. Os joaninos, estudantes das escolas da capital, vinham quase todos e em suas companhias, alguns amigos, visitantes, que aqui se encantavam com a hospitalidade do povo baixadeiro.
Era um tempo em que as fantasias faziam a diferença e para isso, os que integravam as agremiações carnavalescas costumavam guardar alguns trocados, a custo da labuta nas olerias após alguns meses de trabalho para que assim pudessem comprar suas fantasias, sejam as dos blocos, ou mesmo aquelas que lhe dariam algum destaque. Lembro-me de três cavaleiros e uma amazona que nas tardes de domingo, vestidos como generais, em luzidia seda, desfilavam em seus cavalos bem arreiados. Eram Boca e seu irmão Dico de Celina, acompanhados de Leci e seu companheiro Brás Dominice. Era de chamar a atenção.
A Getúlio Vargas era o palco maior. Chegava a ficar pequena, tal era a quantidade de pessoas que se aglomeravam nas esquinas para verem os blocos passarem. As torcidas se dividiam. Turma de Mangueira, Turma do Quinto, Coração do Samba, Salgueiro, Morcego do Samba, estas eram as nossas Escolas de Samba, as mais tradicionais e antigas. O sotaque característico que vinha do tambores cobertos com couro de cobra era contagiante. Os sambas de cada um eram produções próprias. Não se cantava música dos outros. Os blocos tradicionais também brilhavam com uma cadência singular que vinha dos tamborzões. Esta modalidade geralmente reunia a juventude mais elitizada da época. Neste rítmo brilharam “Os Piratas”, “Carrossel”, “Orgulho Joanino”, e os “Tartaranas”, um projeto da emergente juventude da época, mas que só apareceu por um carnaval apenas.
A tribo de índios, denominada “Tupi-guarani”, de iniciativa do protético João Andrade, também brilhou por algum tempo naqueles velhos carnavais. A charanga eletrizada, ao som da velha rabeca de Zé Barros, também marcou tempo. Foi daqui a evolução para os “blocos alternativos”.  Naqueles tempos algumas casas eram escolhidas para recepcionarem as brincadeiras que desfilavam nas tardes de domingo e terças-feiras. Era o momento de correr o grode. Meu pai costuma servir uma novidade da época: Jurubeba indiano!
São desta época também as pérolas de Adelson e Edinho, compositores da Turma de Mangueira. ” … o enredo de Mangueira, é pura inspiração/ é sobre a vida e a morte/ de Lólo de São João…” ou ainda o samba que, já na época, falava das belezas naturais do Lago de Coqueiro, e a lenda de que por lá antes havia uma cidade encantada… “este ano Mangueira apresenta/ seu enredo de real valor/ a história de um Lago encantado/ do guerreiro e do velho pescador…¨ Bons tempos aqueles…! Tudo era lícito. Aliás não se conhecia o ilícito. O que rolava, às vezes, era tão somente “alguns baseados” que vinham lá do encruzo feliz. De resto, a festa era regada com muito vermute, conhaques e muitas louras…
E assim, ao cair das tardes dos domingos e das terças-feiras de carnaval, nossos artistas e homens comuns se tornavam generais da banda. Faziam das suas alegrias as alegrias de muitos… Tudo era festa, e tudo era carnaval! Hoje nossos velhos foliões sucumbiram. Calaram suas vozes. Suas fantasias são retratos em alguma parede, lembranças de muitos baús, ou simplesmente cinzas de um carnaval que já não temos mais…
Folha de SJB
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2 COMENTÁRIO:

  1. Sr. Batista parabéns pelo texto! Nessa época eu ainda era criança. Mais lembrou muito bem dessas maravilhas. Benício SP

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  2. Meu Xará, quero cumprimentá-lo e parabenizá-lo por tão relevante publicação. Confesso que me transportei por alguns instantes a esse tão valioso e saudoso tempo. Voce conseguiu fotografar a realidade de uma época, ainda hoje, viva em minha memória e em meu coração. Lembranças de pessoas e termos que nos fazem suscitar a felicidade inconsciente de adolescente sem imaginação de futuro. Gama, Tarquínio de Buca, Mariano, Brás Dominici, entre outras figuras ecléticas, me permite inserir nessa fotografia de boas imagens, a figura do meu pai, Benedito de Ascenço, que sob a observação do seu ídolo e na alegria do samba da Turma da Mangueira, "só pretendia morrer depois de 2001". E assim, muitas outras são as recordações que nos proporcionam até mesmo sentir saudades da novidade tão agradável que era o Jurubeba Indiano. Parabéns! Um forte abraço, Batista - Curva de Ascenço.

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